Esta é uma crise com foco no custo humano da guerra e na manipulação política das baixas.
Nem a Rússia nem a Ucrânia divulgam, com transparência, o número de militares mortos na guerra iniciada em fevereiro de 2022. Os motivos são evidentes: reconhecer perdas enfraquece o moral das tropas, abala a sociedade e pode comprometer a sustentação política do conflito.
Segundo estimativas de serviços de inteligência ocidentais, uma das preocupações do Kremlin seria o impacto provocado pela chegada dos corpos dos soldados russos às suas cidades de origem. Os sacos plásticos entregues às famílias podem transformar o luto privado em indignação coletiva, especialmente entre mães e viúvas, historicamente capazes de mobilização pública na Rússia.
A Ucrânia, por sua vez, divulga amplamente suas perdas civis, mas mantém reserva sobre as baixas militares. Na guerra contemporânea, números, imagens e narrativas também são armas. A propaganda procura fortalecer a própria causa, demonizar o adversário e disputar a opinião pública internacional.
Um estudo do CSIS estima que, entre fevereiro de 2022 e junho de 2026, cerca de 600 mil militares tenham morrido. As perdas russas seriam de 400 mil a 450 mil mortos, enquanto as ucranianas estariam entre 125 mil e 150 mil. Uma verdadeira carnificina.
A Rússia justificou inicialmente a invasão pela suposta necessidade de “desnazificar” a Ucrânia; depois vieram argumentos relacionados à expansão da OTAN e à segurança russa. Nenhuma narrativa, entretanto, altera a natureza essencial de uma guerra de conquista territorial.
Na minha opinião, o aspecto mais perturbador é que tamanha perda de vidas já parece incapaz de produzir urgência política suficiente para encerrar o conflito. Enquanto as negociações fracassam e os interesses estratégicos prevalecem, jovens continuam voltando para casa em sacos plásticos. Quando uma guerra transforma a morte em estatística e o luto em instrumento de propaganda, a humanidade já sofreu uma derrota que nenhum exército poderá chamar de vitória.