Ordem e Progresso: um lema incompleto?
Em tempos de Copa do Mundo, quando o verde e o amarelo voltam a ocupar ruas, vitrines e estádios, vale recordar o significado da inscrição “Ordem e Progresso” estampada na Bandeira Nacional. O lema tem origem no positivismo, corrente filosófica criada pelo francês Auguste Comte, cuja máxima era muito mais ampla: “O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim”.
Com a Proclamação da República, em 1889, a nova bandeira preservou as cores nacionais, mas adotou apenas parte da frase. A influência positivista era expressiva entre militares, engenheiros e intelectuais republicanos, que viam na ciência, na organização do Estado e na estabilidade institucional os caminhos para modernizar o Brasil. Assim, “Ordem e Progresso” tornou-se a síntese de um projeto de construção nacional baseado na disciplina e no desenvolvimento.
A retirada da palavra “amor”, entretanto, não foi apenas uma simplificação estética. Ela simbolizou a opção por um ideal mais pragmático, voltado ao fortalecimento das instituições e ao crescimento material. Ao longo da história, o país buscou, diversas vezes, promover o progresso econômico sem dar igual atenção à coesão social, à solidariedade e ao bem-estar coletivo — elementos presentes no pensamento original de Comte.
Talvez a maior reflexão proporcionada pelo lema da bandeira seja justamente sobre aquilo que ficou de fora. Ordem sem humanidade pode converter-se em rigidez; progresso sem inclusão tende a beneficiar apenas alguns. Em um Brasil que continua buscando conciliar crescimento, justiça social e estabilidade democrática, talvez seja oportuno recordar que o lema completo de Comte permanece tão atual quanto aquele inscrito em nossa bandeira.