Cunha Couto

Gestor de Crises

Geografia é Destino?

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Em artigo recente, o jornalista de economia Fausto Oliveira retomou uma velha máxima da geopolítica: “geografia é destino”. A reflexão ganha força diante da instabilidade no Estreito de Ormuz, rota vital para o comércio global e responsável pelo trânsito de parcela significativa do petróleo e dos fertilizantes consumidos no mundo. A tensão entre Estados Unidos e Irã evidencia como fatores geográficos continuam determinando poder, segurança e prosperidade das nações, apesar das ilusões de um mundo supostamente “desmaterializado” pela globalização digital.

O argumento central de Fausto Oliveira é simples e contundente: nenhuma sociedade vive apenas de tecnologia ou de mercados virtuais. Alimentos, energia, combustíveis e insumos estratégicos dependem de rotas marítimas, recursos naturais e capacidade logística. Nesse cenário, o Brasil possui vantagens raras. Distante dos grandes eixos de conflito, dispõe de terras agricultáveis, abundância hídrica, extensa costa marítima, riqueza mineral e enorme potencial energético.

O problema brasileiro, contudo, não está na falta de recursos, mas na incapacidade histórica de transformá-los em soberania estratégica. O caso dos fertilizantes é emblemático. Embora seja uma potência agropecuária, o país importa cerca de 85% dos fertilizantes que sustentam suas safras, muitos deles transportados justamente pelo Estreito de Ormuz. Essa dependência expõe a fragilidade de uma economia que acreditou excessivamente nas cadeias globais de valor e negligenciou políticas nacionais de autossuficiência.

Ao mesmo tempo, o texto recorda que o Brasil soube agir estrategicamente em outras áreas, como no etanol e nos motores “flex”, criando relativa proteção contra os choques do petróleo. Faltou visão semelhante para fertilizantes, refino e segurança energética ampliada.

Enfim, a crise em Ormuz nos conduz a uma verdade incômoda: países que não transformam suas vantagens geográficas em projeto nacional acabam reféns das decisões e dos conflitos alheios.

O Brasil possui condições excepcionais para combinar segurança alimentar, energética e estabilidade estratégica. Mas a geografia, sozinha, não produz grandeza. Sem planejamento, tecnologia e visão de longo prazo, até os maiores privilégios naturais podem se converter apenas em potencial desperdiçado.

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