Cunha Couto

Gestor de Crises

CV e PCC x Escudo das Américas

Design sem nome (53)

A decisão do Departamento de Estado dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como Organizações Terroristas Estrangeiras representa um movimento com implicações que vão muito além do combate ao narcotráfico. A medida, anunciada para entrar em vigor em 5 de junho, permite ampliar mecanismos de congelamento de ativos, rastreamento financeiro, monitoramento internacional e punição a indivíduos ou instituições que forneçam apoio material às facções. Washington justifica a iniciativa alegando que ambas as organizações possuem redes criminosas transnacionais que ultrapassam as fronteiras brasileiras e alcançam outros países das Américas, inclusive os próprios EUA.


Na prática, porém, a mudança altera também a forma como essas organizações passam a ser percebidas pelos órgãos de segurança norte-americanos. Ao deixar de serem tratadas apenas como grupos criminosos e passarem a integrar a categoria do terrorismo internacional, o tema desloca-se parcialmente do campo policial para o da segurança nacional. Isso amplia o envolvimento de estruturas de inteligência e defesa, aumenta o nível de sigilo das operações e abre espaço para instrumentos mais agressivos de atuação externa. Diversos analistas e autoridades brasileiras têm manifestado preocupação de que essa classificação possa criar precedentes para pressões políticas, sanções econômicas ou futuras justificativas para intervenções sob o argumento do combate ao narcoterrorismo.


O debate ganha relevância porque ocorre em um contexto mais amplo de fortalecimento da presença estratégica dos Estados Unidos no continente. A proposta do chamado “Escudo das Américas”, associada à visão de Donald Trump para segurança hemisférica, reforça a ideia de manter o espaço americano sob forte coordenação de Washington diante de ameaças transnacionais, sejam elas criminosas, terroristas ou geopolíticas. Nesse cenário, cresce também a tendência de empregar Forças Armadas em missões de segurança pública, fenômeno já observado em diversos países latino-americanos.


Não há dúvida de que o crime organizado transnacional exige cooperação internacional intensa, especialmente no combate ao tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro. Entretanto, a adoção automática de agendas formuladas fora do país pode gerar riscos à soberania e aos interesses nacionais. O Brasil precisa combater com firmeza o PCC e o CV, mas deve fazê-lo a partir de uma estratégia própria, baseada em seus marcos legais, suas instituições e suas prioridades. Transformar o enfrentamento ao crime em uma questão predominantemente militar pode produzir efeitos colaterais graves e resultados incertos.
Cooperação é necessária; subordinação estratégica, não.

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