Cunha Couto

Gestor de Crises

Bosque Centenário

Design sem nome (51)

Entre os muitos gestos cuidadosamente calculados da diplomacia chinesa, poucos foram tão simbólicos quanto o passeio de Xi Jinping com Donald Trump por um bosque de árvores centenárias em território chinês. O cenário, marcado por silêncio, tradição e permanência histórica, parecia transmitir mais do que cordialidade: era uma encenação de poder civilizacional. Ao revelar que naquele local especial havia recebido apenas Trump e Vladimir Putin, Xi deixou implícita uma mensagem estratégica. Mais importante talvez do que os convidados foi a ausência: a Europa não estava ali.


A exclusão simbólica da União Europeia levanta uma hipótese inquietante. Estaria a China vislumbrando uma nova arquitetura internacional baseada em um tripé EUA–China–Rússia?


A atual postura europeia, frequentemente hostil ao trumpismo e cada vez mais dependente da proteção militar norte-americana, pode estar produzindo um isolamento estratégico involuntário. Afinal, apesar das tensões, Washington, Moscou e Pequim reconhecem mutuamente suas capacidades militares, econômicas e geopolíticas. A liberdade de ação dos EUA em episódios recentes no Oriente Médio, acompanhada de reações protocolares de russos e chineses, demonstra que a assimetria de poder americano continua impondo cautela.


A reunião entre Trump e Xi pareceu menos um encontro protocolar e mais uma conversa “olho no olho” para redefinir parâmetros de convivência estratégica. O centro das discussões provavelmente esteve no comércio: os EUA exigindo revisão de vantagens históricas concedidas à China, e Pequim buscando evitar humilhações incompatíveis com sua visão de grande potência. Há espaço para um entendimento pragmático de ganhos mútuos.


Mas talvez o ponto mais sensível esteja na referência chinesa à “armadilha de Tucídides”. Muitos interpretam a frase como apelo à cooperação. Outros enxergam nela um aviso: a China considera inevitável exercer hegemonia no Leste Asiático e percebe qualquer tentativa de contenção como ameaça existencial. A história mostra que potências movidas por ressentimentos históricos costumam agir com profunda determinação. A Europa talvez esteja subestimando a velocidade com que o eixo estratégico do mundo está sendo redesenhado.

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *