O brasileiro Paulo Ricardo Dutra, de 24 anos, morreu na Ucrânia após pisar em uma mina terrestre durante sua primeira missão. Natural de Camboriú, Santa Catarina, estava havia três meses no país e completaria 25 anos em outubro. Sua morte evidencia uma dimensão pouco transparente dos conflitos atuais: o recrutamento de estrangeiros e a crescente participação de empresas militares privadas.
Os mercenários sempre estiveram presentes nas guerras. Em sua versão contemporânea, porém, passaram a integrar organizações empresariais que oferecem treinamento, inteligência, logística, proteção de instalações, manutenção de armamentos e até participação direta em combates. Estados Unidos, Rússia e outros países recorrem a essas empresas em cenários como Iraque, Síria, África e Ucrânia.
Essa privatização permite reduzir custos, mobilizar pessoal com rapidez e executar missões sem o envolvimento ostensivo das Forças Armadas, o que é muito interessante para alguns países. Ao mesmo tempo, enfraquece o controle estatal sobre o uso legítimo da violência. Recorde-se, ainda, que a atuação do Grupo Wagner demonstrou como uma força privada pode servir aos interesses estratégicos de um governo e, posteriormente, transformar-se em ameaça ao próprio Estado.
Também existem graves lacunas jurídicas. Embora convenções internacionais restrinjam o emprego de mercenários, as empresas militares procuram diferenciar seus contratados dessa categoria. Com isso, as responsabilidades tornam-se imprecisas, e direitos como o reconhecimento do estatuto de combatente ou de prisioneiro de guerra permanecem incertos.
Entendo que a morte do jovem brasileiro deve servir de alerta. A guerra não pode converter-se em mercado de trabalho sem regras claras, fiscalização internacional e responsabilidade dos Estados. Empresas militares privadas talvez sejam uma realidade irreversível, mas sua expansão sem controle tende menos a solucionar conflitos do que a torná-los ainda mais obscuros, prolongados e desumanos.