Proclamada em 1823 pelo presidente James Monroe, a Doutrina Monroe nasceu sob o lema “A América para os americanos”. Seu propósito era advertir as potências europeias de que qualquer tentativa de recolonização ou intervenção no continente seria considerada uma ameaça à segurança dos Estados Unidos. A preocupação era compreensível: a independência americana havia sido conquistada em 1776 e reafirmada na Guerra de 1812, especialmente com a resistência do Forte McHenry, em 1814 — episódio que inspirou o poema transformado na letra do hino nacional norte-americano.
Com o passar do tempo, entretanto, a doutrina deixou de representar apenas uma barreira ao colonialismo europeu e passou a sustentar a influência de Washington sobre a América Latina. Intervenções políticas e militares, a crise dos mísseis de Cuba e a atuação contra movimentos apoiados pela União Soviética foram justificadas, direta ou indiretamente, por essa concepção estratégica.
O chamado Corolário Roosevelt ampliou ainda mais o alcance da doutrina ao atribuir aos Estados Unidos o direito de intervir em países considerados instáveis.
Ao publicar um vídeo afirmando que o “domínio” norte-americano sobre o Hemisfério Ocidental não será novamente questionado, o Departamento de Estado dos EUA recupera essa antiga lógica em um cenário marcado pela crescente presença chinesa e por tensões comerciais com países como o Brasil.
Sob Donald Trump, “A América para os americanos” corre o risco de significar “a América sob o comando dos Estados Unidos”, reafirmando um papel de polícia continental incompatível com relações internacionais equilibradas.
Em minha opinião, recriar a Doutrina Monroe no século XXI é um perigoso anacronismo. Não existem hoje colônias a libertar, mas nações soberanas a respeitar.