Mapas publicados por chefes de Estado raramente são simples ilustrações. Ao destacar fronteiras, territórios ou áreas de interesse, convertem-se em instrumentos de poder e em mensagens estratégicas dirigidas tanto à opinião pública interna quanto à comunidade internacional.
Foi o que ocorreu quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, divulgou, na rede Truth Social, uma imagem do Estreito de Hormuz acompanhada da expressão “novo território dos Estados Unidos”. A publicação reforçou declarações anteriores segundo as quais o controle norte-americano sobre essa passagem marítima decorreria da derrota militar imposta ao Irã.
Localizado entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, o estreito constitui uma das rotas mais sensíveis da economia mundial, por onde circula parcela expressiva do petróleo e do gás comercializados internacionalmente. Qualquer ameaça à liberdade de navegação por esse estreito produz efeitos imediatos sobre preços, seguros, transportes e segurança energética.
Apesar da contundência da mensagem, não está claro como Washington poderia converter a declaração em controle territorial efetivo. Uma ocupação militar exigiria recursos consideráveis, envolveria elevados riscos operacionais e poderia aprofundar a instabilidade regional. Paralelamente, o prazo concedido pelos Estados Unidos e pelo Irã para negociar o encerramento da guerra terminou sem acordo, ampliando as incertezas.
Em minha opinião, a publicação deve ser interpretada menos como anúncio de anexação e mais como demonstração de força. Ainda assim, quando um governante redesenha simbolicamente o mapa, transforma a cartografia em gesto político e corre o risco de fazer da provocação uma realidade difícil de controlar.