A expansão acelerada da inteligência artificial começa a revelar uma de suas contradições: quanto mais virtual se torna a economia, maior é sua dependência de infraestruturas físicas. Nos Estados Unidos, uma forte onda de calor levou o Departamento de Energia a determinar que os data centers da região atendida pela PJM utilizassem geradores de emergência para reduzir a pressão sobre a rede elétrica. Na Virgínia, o preço do megawatt-hora chegou a saltar de US$ 40 para US$ 600.
O episódio demonstra como crises distintas podem se conectar e produzir efeitos em cascata. O calor extremo amplia o uso de aparelhos de ar-condicionado justamente quando os data centers exigem volumes crescentes de energia para sustentar aplicações de inteligência artificial. Ao mesmo tempo, uma rede elétrica envelhecida enfrenta dificuldades para acompanhar o crescimento da demanda. Forma-se, assim, uma crise complexa: climática em sua origem, energética em sua manifestação, econômica em seus efeitos e política em suas consequências.
Para o gerenciamento de crises, a principal lição é a necessidade de antecipação. Não basta reagir à falta de energia quando a temperatura sobe ou quando os preços disparam. É necessário trabalhar com cenários, indicadores de alerta e planejamento integrado entre governos, operadores da rede elétrica e grandes consumidores. A expansão da inteligência artificial precisa ser acompanhada pela ampliação da capacidade energética e pela modernização das redes.
Na minha opinião, o problema não está no avanço da inteligência artificial, mas na velocidade com que ela cresce sem que a infraestrutura acompanhe esse ritmo. A verdadeira crise surgirá quando a sociedade perceber que, para sustentar a revolução digital, poderá ser obrigada a pagar mais pela energia e consumir menos. Nenhuma inovação será politicamente sustentável se seus benefícios forem privados e seus custos forem transferidos para a população.