Trata-se da violência que encontra aplauso nas redes sociais.
A tortura e a morte do cachorro comunitário Orelha, em Florianópolis, acenderam um alerta incômodo: o aliciamento e a radicalização de crianças e adolescentes para o zoosadismo por meio das redes sociais. O caso ganhou repercussão nacional, mas está longe de ser exceção. Cães e gatos são mutilados e mortos diariamente no Brasil, enquanto seus algozes são celebrados em grupos virtuais que incitam a barbárie — quase sempre fora do radar da mídia e do debate público.
Nessas bolhas digitais, a violência é transformada em desafio. Ferir animais rende curtidas, visibilidade e uma sensação perversa de pertencimento ao grupo.
Jovens em situação de fragilidade emocional ou psicológica tornam-se alvos fáceis: são acolhidos, estimulados e, pouco a pouco, empurrados para a escalada do horror. A lógica é conhecida: quanto mais extremo o ato, maior o aplauso. O resultado é a normalização da crueldade e a banalização da vida.
Eis que a indignação, quando irrompe, revela o tamanho do abismo. O tema mobilizou o país e chegou à Avenida Paulista, em São Paulo, com manifestações contra os maus-tratos a cães. O clamor é legítimo, mas episódico — e a violência não é.
Portanto, tratar o zoosadismo como desvio isolado é um erro grave. Ele é sintoma de um ecossistema digital que recompensa o ódio e a crueldade. Combater esse fenômeno exige investigação policial especializada, responsabilização das plataformas, educação digital nas escolas e políticas de saúde mental. Sem isso, seguiremos reagindo a casos emblemáticos, enquanto a máquina de radicalização continua operando em silêncio.