Cunha Couto

Gestor de Crises

UE–Mercosul x Trump

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Nesse embate, estão em jogo comércio, poder e disputa por influência.

A jornalista Eliane Cantanhêde sintetizou a apreensão em uma pergunta direta: se Donald Trump ataca os BRICS e desdenha a União Europeia, será indiferente ao acordo Mercosul–UE?

Difícil. O tratado, que reúne cerca de 720 milhões de pessoas e um PIB combinado próximo de US$ 22 trilhões, é um feito econômico de primeira grandeza – e, sobretudo, um movimento político.

No mesmo momento em que o acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul se materializa, Trump eleva a pressão geopolítica: ameaça a Europa ao sinalizar interesse estratégico pela Groenlândia e projeta poder sobre a América Latina, tratando a região como “quintal” dos Estados Unidos. Seu padrão é claro: negocia com pares de musculatura equivalente, como a China, e intimida o restante.

Após 25 anos de idas e vindas, a assinatura do acordo – em 17 de dezembro, no Paraguai – enfrenta resistências setoriais, notadamente da agricultura francesa, e ainda depende da aprovação do Parlamento Europeu.

Por trás desse movimento está a percepção europeia de que o continente corre o risco de perder espaço estratégico na América do Sul para Pequim. Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil, absorvendo cerca de 28% das exportações brasileiras, contra 14% da União Europeia e 11% dos Estados Unidos. O comércio China–América Latina saltou de US$ 12 bilhões, em 2000, para aproximadamente US$ 500 bilhões em 2024, acompanhado por investimentos superiores a US$ 110 bilhões em infraestrutura, energia e telecomunicações – com símbolos como o Porto de Chancay, no Peru.

Para o Brasil, o acordo é estratégico. Integra o país à maior zona de livre comércio do mundo em um cenário marcado por coerção e unilateralismo: são 31 países, em dois continentes, pactuando regras, previsibilidade e acesso, o que tende a facilitar negociações futuras com a Ásia.

Assim, o acordo UE–Mercosul não se resume ao comércio; trata-se de um reposicionamento de poder.

Em um mundo mais áspero, escolher regras e alianças é escolher soberania. A Europa acordou tarde, mas acordou; ao Brasil cabe usar o tratado para diversificar parcerias e reduzir vulnerabilidades – sem ilusões de neutralidade em um tabuleiro cada vez mais duro.

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