Causou estranheza a decisão de Donald Trump de permitir que a vice-presidente da Venezuela assumisse o comando do país após a queda do governo Maduro. À primeira vista, a leitura mais imediata apontaria para a revanche: uma devassa no aparelho estatal recém-deposto, a exposição pública da corrupção e punições exemplares. Mas decisões tomadas sob impulso raramente constroem estabilidade.
Essa opção adotada remete a um precedente clássico da ciência política: a ocupação do Japão no pós-guerra. Apesar de poder responsabilizar o imperador Hiroíto pela entrada do país no conflito, os Estados Unidos optaram por mantê-lo no trono. À época, a decisão soou paradoxal — o principal símbolo do regime derrotado permanecia no poder. O objetivo, contudo, era preservar um mínimo de continuidade institucional para facilitar a transição e evitar convulsões sociais.
Sem incorrer em anacronismos, a comparação revela um mesmo cálculo estratégico: ganhar tempo para que a sociedade absorva a nova realidade política antes de mudanças estruturais profundas. A sabedoria chinesa ensina que, às vezes, é preciso agir como o bambu diante da ventania: vergar para não quebrar.
Como curiosidade histórica, vale lembrar que a decisão de manter Hiroíto coube a Harry S. Truman; a de manter a vice venezuelana, a Trump. Em inglês, ato verdadeiro é true; verdade é truth.
Coincidências à parte, minha avaliação é que, em contextos de ruptura extrema, a racionalidade deve prevalecer sobre o desejo de vingança. Decisões intempestivas inflamam ressentimentos, corroem a legitimidade da transição e empurram países para o caos ou a guerra civil — exatamente o que uma crise exige evitar.
Como diz o ditado espanhol: “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.”