O tempora, o mores! (“Ó tempos, ó costumes!”)
A exclamação de Cícero, pronunciada há mais de dois mil anos, ainda encontra eco quando a vida pública parece consumir a paciência dos cidadãos. Em 63 a.C., diante do Senado romano, o cônsul dirigiu a Lúcio Sérgio Catilina a pergunta que atravessaria os séculos: “Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?”
Catilina, derrotado em suas ambições políticas e cercado de seguidores, foi acusado de conspirar contra a República. Cícero expôs a trama em uma série de discursos que ficaram conhecidos como Catilinárias. A força dessas palavras vinha da gravidade da acusação e da defesa das instituições diante de uma ameaça concreta.
É tentador transportar o discurso diretamente para o Brasil de hoje. A desconfiança entre os Poderes, os embates políticos e as disputas jurídicas dão atualidade ao sentimento de perplexidade expresso por Cícero. Mas a história não autoriza atribuir o papel de Catilina a adversários de ocasião: acusar alguém de conspirar exige provas, e defender a República exige respeito às suas regras.
A meu ver, a pergunta de Cícero deve ser dirigida a todos os que exercem o poder. Até quando a conveniência política prevalecerá sobre a responsabilidade pública?
A indignação pode despertar a sociedade, mas só a apuração rigorosa dos fatos, o respeito à lei e a disposição para prestar contas são capazes de fortalecer a democracia.