Em 30 de setembro de 2005, o jornal dinamarquês Jyllands-Posten publicou doze charges que retratavam o profeta Maomé. Essa publicação desencadeou protestos em países de maioria muçulmana, ameaças a representações diplomáticas da Dinamarca e episódios de violência que deixaram numerosos mortos.
A controvérsia expôs um conflito difícil de conciliar. Para muitos ocidentais, mesmo uma representação ofensiva está protegida pela liberdade de expressão. Para muitos muçulmanos, retratar o profeta constitui uma grave ofensa à fé. As charges foram republicadas por alguns veículos, enquanto outros decidiram não o fazer, em meio a preocupações com a segurança, o respeito religioso e a autocensura.
O episódio recorda o verso de Rudyard Kipling segundo o qual Oriente e Ocidente jamais se encontrariam. A frase sugere uma distância intransponível, mas nenhuma das duas sociedades fala com uma só voz. Houve divergências, inclusive no interior do mundo islâmico, sobre as formas legítimas de protesto.
A meu ver, o encontro entre culturas começa quando se reconhece o direito de discordar sem transformar a ofensa em licença para matar. A liberdade de expressão exige responsabilidade; a defesa da fé exige respeito pela vida. Ceder à violência empobrece ambas.