O historiador Niall Ferguson alerta que a inteligência artificial e os algoritmos estão transformando a forma como a sociedade se relaciona com o passado. Em seu ensaio A Morte da História, ele argumenta que a velocidade da circulação de conteúdos digitais favorece a disseminação de versões falsas ou distorcidas dos fatos. O exemplo mais contundente é o Holocausto: apesar da imensa documentação histórica, movimentos negacionistas continuam influenciando parte dos jovens por meio das redes sociais.
Essa preocupação dialoga com uma reflexão do historiador Rubens Perlingeiro: não estudamos a História em si, mas a historiografia, isto é, aquilo que foi escrito sobre os acontecimentos. Toda narrativa histórica carrega escolhas, interpretações, omissões e, muitas vezes, convicções ideológicas de seus autores. Por isso, um antigo professor ensinava que é preciso ler o texto, o intertexto e o entretexto: compreender o que foi escrito, perceber o que foi sugerido sem ser explicitado e, sobretudo, comparar diferentes autores que trataram do mesmo tema. Na História, como em muitas áreas do conhecimento, a comparação é indispensável.
Uma experiência pessoal reforçou essa convicção. Em O Príncipe Maldito, Mary Del Priore relata que o Visconde de Ouro Preto teria se despedido de D. Pedro II beijando-lhe a testa. O gesto pareceu incompatível com a etiqueta da Corte. Ao consultar a mesma passagem em obra de Paulo Rezzutti, encontra-se outra descrição: o Visconde beijou-lhe a destra, a mão direita, como determinava o protocolo. A divergência demonstra como até detalhes aparentemente simples podem ser alterados por interpretação, erro ou opção narrativa.
Sem dúvida, a inteligência artificial amplia tanto nossa capacidade de acesso ao conhecimento quanto o risco de multiplicar versões equivocadas. Por isso, mais do que nunca, o espírito crítico deve prevalecer sobre a confiança cega em qualquer fonte.
A História continuará sendo um instrumento essencial para compreender o presente, desde que tenhamos a disciplina de confrontar evidências, comparar narrativas e desconfiar das certezas fáceis.