Cunha Couto

Gestor de Crises

A paz mundial é possível?

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Na sua primeira mensagem para o Dia Mundial da Paz, em 1.º de janeiro, o Papa Leão XIV retomou a saudação inaugural de seu pontificado — “A paz esteja convosco”. As mesmas palavras com que Cristo se dirigiu aos discípulos após a ressurreição soaram ali como consolo a uma Igreja ainda marcada pela perda do Papa Francisco, mas também como sinal de prioridade: a paz no mundo.

A mensagem vai além do gesto simbólico. Leão XIV aponta a urgência de uma convivência fraterna entre os povos, apesar das diferenças, e de uma Igreja reconciliada, sem antagonismos paralisantes, capaz de concentrar energias no essencial: o testemunho da vida, da compaixão e da paz. Para isso, insiste, é preciso acreditar na paz e acolhê-la interiormente.

E mais: não há discurso pacífico que resista quando nasce do ódio ou do desejo de vingança. Como lembrava Santo Agostinho, ninguém atrai outros para a paz se não a carrega primeiro dentro de si.

O contraste com o cenário internacional é evidente. O recrudescimento dos conflitos, a corrida armamentista e o uso crescente de tecnologias — inclusive a inteligência artificial — reforçam a velha lógica do si vis pacem, para bellum. A paz passa a ser vista como ideal ingênuo, enquanto a preparação para a guerra se torna critério de responsabilidade política. O resultado é um mundo permanentemente tensionado pelo medo.

Leão XIV denuncia ainda a cultura da ameaça e os interesses econômicos que empurram Estados para a guerra. Recorda que os conflitos de hoje repetem motivações antigas: poder, vaidade e injustiças não resolvidas. Superá-las exige consciência crítica e mudança cultural.

Enfim, a pergunta “paz mundial é possível?” não admite respostas fáceis. Mas a alternativa — aceitar a força bruta como regra — é, além de moralmente pobre, estrategicamente suicida.

Isso porque a paz não nasce da ingenuidade, e sim de instituições fortes, diálogo persistente e coragem política para enfrentar interesses que lucram com o medo.

A escolha, portanto, é clara: ou se investe na paz como projeto concreto, ou se normaliza um futuro de conflitos recorrentes. Continuar acreditando na paz, hoje, é menos um ato de fé romântica e mais um imperativo de lucidez.

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