Cunha Couto

Gestor de Crises

Ataque a náufragos

Design sem nome (24)

Essa é uma linha que não se pode cruzar.

A crise envolvendo a campanha militar dos Estados Unidos contra supostos traficantes de drogas no Caribe ganhou nova intensidade após congressistas assistirem ao vídeo sigiloso do ataque de 2 de setembro — ação que matou 11 pessoas e incluiu um segundo bombardeio contra dois sobreviventes já à deriva.

Jim Himes, democrata de Connecticut, classificou as imagens como “uma das coisas mais perturbadoras” que já viu no serviço público: dois indivíduos claramente indefesos sendo mortos após o naufrágio. Para o republicano Tom Cotton, porém, o ataque foi “legal e necessário”, sob o argumento de que os sobreviventes ainda representariam uma ameaça.

Especialistas em direito internacional foram rápidos em apontar que o caso pode configurar crime de guerra. O próprio Manual de Leis de Guerra do Pentágono proíbe atacar náufragos — pessoas incapacitadas e necessitadas de assistência. Brian Finucane, ex-advogado do Departamento de Estado, afirmou que alegar que um náufrago poderia “retomar o tráfico” esvaziaria toda a lógica protetiva do direito humanitário.

A controvérsia se ampliou com o relato de que o almirante Frank M. Bradley teria seguido uma ordem verbal do secretário de Defesa, Pete Hegseth, para “matar todos”. Bradley negou ter recebido tal comando, enquanto Hegseth tentou se afastar da polêmica, embora tenha defendido que o almirante “tomou a decisão correta” ao eliminar uma suposta ameaça. O secretário já estava sob desgaste após a revelação de que enviou informações operacionais sensíveis por celular pessoal, via Signal, expondo operações no Iêmen.

No plano opinativo, o episódio ultrapassa o debate jurídico e expõe um risco maior: a normalização de exceções em nome da segurança. Atacar náufragos não é zona cinzenta — é violação frontal de princípios que sustentam a legitimidade das forças armadas em democracias. Se a lei pode ser redesenhada conforme a conveniência operacional, o limite moral que protege civis, militares e instituições começa a ruir.

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