Cunha Couto

Gestor de Crises

Riscos para 2026: um mapa de instabilidades

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A análise de riscos tornou-se uma ferramenta central para a prevenção de crises em um mundo cada vez mais volátil.

Relatório recente da Eurasia identifica dez riscos para 2026, dos quais três estruturam o cenário global e afetam diretamente Estados Unidos, China e América Latina. Para o Brasil, o desafio será preservar autonomia estratégica em um ambiente mais instável e politizado.

O primeiro risco é a revolução política em curso nos Estados Unidos. O segundo mandato de Donald Trump tem aprofundado a centralização do poder Executivo e enfraquecido contrapesos institucionais. A combinação de incerteza fiscal, pressão sobre o Federal Reserve e decisões unilaterais em comércio e segurança aumenta a volatilidade global e a sensibilidade dos mercados a choques vindos de Washington.

O segundo risco é o descolamento entre Estados Unidos e China nas tecnologias ligadas à energia e à transição climática. A China lidera cadeias produtivas inteiras — de painéis solares a baterias e veículos elétricos —, enquanto os EUA redirecionam sua estratégia energética para os combustíveis fósseis. Países ficam presos entre metas climáticas e pressões geopolíticas para reduzir a dependência tecnológica chinesa, tensão que tende a se aprofundar em 2026.

O terceiro risco é a reafirmação do poder americano no hemisfério ocidental, sintetizada na nova Doutrina Monroe, rebatizada de “Donroe”. Embora novos ataques em larga escala ainda sejam improváveis, a ação na Venezuela sinaliza disposição para o uso de instrumentos mais duros, elevando a incerteza política na região.

Para o Brasil, os impactos são ambíguos. O país combina petróleo, matriz elétrica renovável e acesso a minerais críticos, o que abre margem de negociação com EUA e China sem alinhamentos automáticos. Ainda assim, persistem vulnerabilidades: a dependência da demanda chinesa por commodities, a pressão sobre a indústria e os riscos da inteligência artificial no processo eleitoral, cujo controle regulatório é complexo e tardio.

Portanto, em 2026, o maior risco para o Brasil não é escolher um lado, mas adiar escolhas. Autonomia estratégica exige decisões claras, investimento em capacidade estatal e um debate público qualificado. Sem isso, a margem de manobra existe — mas pode se perder rapidamente.

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